IV PARTE – Amynthas Pires de Carvalho, Prisioneiro do Campo Stalag VII A, Moosburg, Alemanha.

IV PARTE – Amynthas Pires de Carvalho, Prisioneiro do Campo Stalag VII A, Moosburg, Alemanha.
“Ás altas horas da madrugada, os alemães nos puseram novamente a caminho. Recebemos ordens para nos meter em cima de caminhões. O frio era intenso. Sem agasalhos como nos encontrávamos, estávamos prestes a congelar.
Para nossa surpresa irrompeu-se um acirrado bate-boca entre os motoristas e os operadores das balsas em torno da conveniência ou não de enfrentar a corrente muito forte naquele trecho do rio. Quando o dia começou a raiar, eis que nos vimos retornando a Parma, exatamente no ponto onde havíamos partido. Umas 5 horas após nosso regresso à Parma, juntaram-se a nós uma leva de 5 prisioneiros norte-americanos.
Vinte e quatro horas após nosso regresso à Parma, os alemães nos fizeram subir novamente nas carrocerias dos caminhões , e formaram uma longa coluna para nos levar a outro campo. Durante todo o percurso, a aviação aliada metralhou o comboio com intensidade. Os caças vinham em vôo rasante e varriam a coluna de caminhões com rajadas de metralhadora, enquanto os motoristas procuravam fugir, e lançavam as viaturas, em alta velocidade, para dentro do primeiro abrigo que encontravam. Por fim chegamos relativamente inteiros a Mantova. Era nessa cidade que os alemães organizavam levas de 700 a 1.000 prisioneiros de guerra para serem eventualmente, transportados por via férrea à Alemanha. Os prisioneiros eram divididos em “currais” onde havia barracas de madeira cobertas de lona. Invariavelmente, existia um toque de recolher às 18 horas. Não havia iluminação. Esse suplício durou 30 dias bem contados. Já estávamos todos cadavéricos, em carne e osso, consumidos pela fome e pela sede e pelas intempéries e, também, pela impossibilidade de dormir. De manha, quando o nevoeiro começava a dissipar-se e o céu ficava claro, recebíamos a “visita” dos aviões americanos. Os aviões lançavam bombas sobre vários objetivos na cidade. Alguns desses estilhaços chegaram a perfurar as coberturas de lona. Quando os alemães soavam o alarme antiaéreo, corríamos para recolher-nos aos abrigos subterrâneos, dentro do campo, que os alemães nos forçaram a escavar. Ficávamos literalmente compactados, costa a costa, ombro a ombro, barriga com barriga, até que soasse o sinal de que os bombardeios haviam cessado.
Após quase 72 horas em jejum total, os alemães nos deram, por fim, uma tigela de sopa. Sopa especial. Havia sido preparada de uma cabeça de cavalo putrefata. Recendia cheiro intenso de carniça. Mesmo assim, vencendo convulsões de vômito seco, engoli avidamente aquela sopa. Ou a tomava ou tombava de inanição e sede.
Numa exibição macabra, os alemães fizeram “marchar” pelas ruas de Mantova uma coluna, em fila única, de 1.000 homens, meio vivos, meio cadáveres, do campo de prisioneiros até à estação ferroviária. Já era noite, e os alemães antes de nos fazer entrar dentro dos vagões, nos deram outra porção de sopa. Em seguida, os guardas alemães iam nos forçando a subir as escadas, quase a ponta de baioneta. Em cada vagão de carga, que deveria medir mais ou menos 3 metros de largura por 15 metros de comprimento, os alemães atocharam 50 homens. Naturalmente, não havia bancos. De dentro do vagão, totalmente às escuras, não podíamos saber por onde íamos passando. Eu só tinha noção do deslocamento do trem pelo barulho das rodas nos trilhos, que eu imaginava ir repetindo em ladainha monótona, repetitiva, interminável: “Café com pão, manteiga não”. Café com pão, manteiga não. Café com pão, manteiga não. Infelizmente. Ao pensar em café, pão e manteiga, a fome que já era intensa, se tornou dolorida. Comecei a desejar o que era impossível acontecer: uma parada e uma refeição.
6 de dezembro de 1944, esse foi o dia do embarque fatídico com destino à Alemanha.”

~ by dineyinsights on December 5, 2014.

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