Tutmés IV e a Grande Esfinge

A Grande Esfinge de Gizé, guardiã das pirâmides dos faraós Miquerinos, Quefrén e Queóps – esta última conhecida como “A Resplandecente” e a única das Sete Maravilhas do mundo antigo ainda de pé – foi construída por volta de 2500 a.C., a mando do faraó Quefrén. Entretanto sabe-se que durante o longo período da história do Egito antigo este monumento foi coberto várias vezes pelas areias do deserto. Milhares de anos depois de sua construção, por volta de 1413 a.C., ela encontrava-se coberta até o pescoço.

Foi nesta época que o jovem príncipe Tutmés, filho do faraó Amenhotep II, teve um sonho ao adormecer sob a esfinge durante uma caçada:

“Andando a caçar certo dia no deserto, sentou-se para descansar à sombra da grande Esfinge, ou ao menos daquilo que dela emergia da areia. Cansado, adormeceu e sonhou que a Esfinge lhe falava, ‘como um pai fala a um filho: Olha-me, pois, meu filho Tutmés, eu sou o teu pai Harmachis-Quéfren-Rá-Atum (…) Tu unirás a Coroa Branca e a Vermelha sobre o Trono de Geb, o Rei dos deuses (…) o meu coração está voltado para ti, porque tu deves ser o meu protetor. O meu coração está acabado e a areia do deserto me oprime; socorre-me e faze o que é o meu desejo, já que tu és o meu filho e Eu estou contigo; Eu sou o teu guia’. O príncipe desperta e coloca ‘as palavras do deus no silêncio do coração’”.

As palavras acima foram gravadas na chamada Estela do Sonho, que se ergue ainda hoje entre as patas da Esfinge, após o monumento ter sido desenterrado das areias do deserto por ordem do príncipe Tutmés quando este ascendeu ao trono com o nome de Tutmés IV, o oitavo faraó da XVIII dinastia egípcia, que governou o país de 1413 a.C. a 1405 a.C aproximadamente. E através delas pode-se deduzir que o príncipe Tutmés não estava, pelo menos a princípio, destinado ao trono do Egito.

Seguindo através deste raciocínio percebemos que neste episódio apareceu uma outra forma de tentativa de legitimação do poder real pelo faraó ou por seus partidários: a própria divindade, representada pela Esfinge, interveio no mundo dos homens e escolheu o sucessor do rei, recompensando-o com o trono real. 

A chegada de Tutmés IV ao trono foi um golpe nos poderosos sacerdotes do deus Amon, da cidade de Tebas, que estavam acumulando poder com o favorecimento dos monarcas anteriores. O novo faraó demonstrou sua preferência para com Rá, divindade solar da cidade de Heliópolis, num episódio que é considerado pelos egiptólogos como o embrião da reforma religiosa realizada anos depois pelo faraó Akhenaton[1].

 

[1] Quando por ordem do soberano foram proibidos os cultos a quase todas as divindades egípcias, com exceção de Aton, o disco solar. Os templos foram fechados e houve uma campanha que perseguiu principalmente o culto a Amon. Esta culminou com a raspagem do nome do deus dos templos e com a mudança da capital do Egito de Tebas, cidade cujo patrono era Amon, para uma nova cidade construída ao norte, Akhetaton (“O Horizonte de Aton”).

 

~ by dineyinsights on June 11, 2014.

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